sábado, 27 de outubro de 2012

A importância do ambiente extra-classe na aquisição de língua inglesa como língua estrangeira.


Artigo baseado em observação e coleta de dados, extraído de monografia de conclusão de

pós-graduação em Ensino de Língua Inglesa, Unicentro, Paraná, 2001.


RESUMO
Este trabalho tem por objetivo demonstrar a importância dos esforços particulares dos estudantes de língua inglesa como segunda língua para alcance de um nível acadêmico adequado de aquisição.

Apresentamos a importância da adequação do ambiente intelectual, visando um mínimo de abordagem emocional relacionada à língua alvo, assim como as tendências culturais do estudante, a fim de modificar suas visões sócio-culturais através de seus estudos.
Uma breve discussão das vantagens encontradas no trabalho extra-classe foi aqui elaborada baseada nos interesses pessoais do estudante.
Finalmente, analisamos as atividades extra-classe de um grupo de estudantes de língua inglesa como segunda língua em um Instituto de Línguas para examinar sua abordagem de estudo particular da língua.
Concluímos este trabalho com a sugestão da aplicação destes pontos em outras áreas como meio de promoção de um avanço amplo na aquisição pessoal de conhecimento.
Palavras chave: educação, aquisição de língua inglesa, trabalho extra-classe.

A IMPORTÂNCIA DO AMBIENTE EXTRA-CLASSE NA AQUISIÇÃO DE UMA LÍNGUA ESTRANGEIRA

Todas as pessoas normais aprendem a falar sua língua materna antes de ir para a escola. Certamente a razão disso está, em primeiro lugar, na facilidade de contato com essa língua.
Uma criança normal aprende sua língua materna graças ao contato visual, auditivo e sinestésico que mantém com ela vinte e quatro horas por dia, além de ser exaustivamente encorajada a falar qualquer coisa a partir do primeiro contato com seu mundo. Em um primeiro momento aprende-se a usar a linguagem para reconhecer e lidar com esse mundo. Mais tarde as escolas irão cuidar da aprendizagem normativa. Chomsky já defendeu a capacidade dos indivíduos de lidarem com o conhecimento a que são expostos. Assim, em função do grau de exposição, qualquer criança normal é capaz de adquirir considerável competência em sua língua materna aos cinco anos de idade. Por ordem do ambiente acostuma-se à forma da língua implicitamente, tornado-se capaz de identificar seu ritmo, entonação, sonoridade, etc., capacitando-se para repeti-la e dominá-la em seu dia a dia. Uma vez que o comportamento lingüístico envolve inovação em concordância com regras e abstrações (RICHARDS, 1994:59), a exposição contínua à língua alvo trará maior segurança e capacidade para lidar com ela.
Para obter igual sucesso na aquisição de uma língua estrangeira é preciso seguir esse mesmo método: cercar-se por essa língua. E só é possível fazê-lo quando realmente se gosta da língua que vai ser estudada. Gostar da cultura de seus falantes também é bastante favorável. Ter curiosidade pelo que se refere a ela, sua origem, forma, história, utilidade, tudo influencia positivamente no aprendizado. Em contrapartida a ausência de simpatia por ao menos um aspecto da língua vai tornar o estudo penoso, quando não impossível. Por mais que um professor possa incentivar da mesma maneira como se faz com um nativo, são as possibilidades do mundo exterior o campo fértil que pode ser explorado segundo as necessidades e os gostos do aprendiz.
A necessidade também é um fator que precisa ser encarado com altamente positivo. Mesmo que o estudante não tenha simpatia pela língua alvo ele deve programar-se para desenvolvê-la procurando pontos de utilidade que possam vir a ser especialmente vantajosos. Na área profissional o aprendizado da nova língua pode significar promoções imediatas, ou para quem gosta de contato com pessoas novas, a possibilidade de comunicar-se profissionalmente com estrangeiros. Ainda é comum encontrarmos em empresas que mantém contato com estrangeiros apenas uma ou duas pessoas capazes de se comunicar com eles. Essas acabam sendo posições de destaque.
Existem muitos ramos profissionais que precisam de falantes de vários idiomas e em algumas áreas pode-se trabalhar como ‘free lancer’ oferecendo serviços de tradução e intérprete. Ou mesmo que sua área não esteja diretamente ligada ao atendimento a estrangeiros hoje qualquer produto pode ser vendido via Internet, assim saber uma língua estrangeira pode aumentar consideravelmente a possibilidade de comércio com o exterior.
Mesmo para quem ainda não tem idéia de que carreira seguir falar uma língua estrangeira significa ser capaz de conseguir informações diretamente da fonte sobre qualquer assunto, lembrando que esperar por traduções de livros importantes pode significar anos. A grande maioria do material publicado on-line é em inglês e aparecem coisas novas todos os dias, desde jogos e fofocas às ciências exatas, e tudo pode ser transformado em idéias lucrativas por pessoas criativas.
E ainda em qualquer matéria escolar encontram-se projetos, muitas vezes com conteúdos completos, exercícios e extras. E nada mais correto do que fazer pesquisas culturais ou sobre atualidades entrevistando pessoas que vivem no local pesquisado. Se o estudante falar uma língua estrangeira, em especial o inglês, entrevistar um morador do Japão não é difícil.

O ambiente
Os estudantes de língua estrangeira devem compreender que a rapidez e, em alguns casos, o sucesso de seu aprendizado exigirá certa estruturação de seu ambiente de estudos extra-classe. Praticamente todas as informações adquiridas extra-classe podem ser aproveitadas e devidamente trabalhadas dentro de um estudo sistemático propiciado pelos métodos de ensino. Nesse processo tudo o que é aprendido é comparado com o que há de disponível na memória. Se a única referência for sua língua materna, normalmente uma língua completamente diferente da que se tenta adquirir, poderá haver muitos equívocos e receios fortes o bastante para barrar tentativas e prolongar o tempo de espera pelo êxito. Lidar com o desconhecido é sempre difícil, caminha-se devagar, com passos incertos.
Assim como o professor precisa basear-se nos conhecimentos pré-adquiridos de seus alunos e em seu ambiente para fornecer o insumo mais eficiente, também o próprio estudante precisa trabalhar esse insumo em seu ambiente para garantir sua aquisição. Teresa Walter (1996) afirma que, comprovadamente o conhecimento a priori dos estudantes, ou seja, o conhecimento que eles já trazem consigo, aumenta consideravelmente o seu grau de aquisição do novo conhecimento. A referida autora ainda chama a atenção para a importância do nível de educação dos estudantes. Afirma essa estudiosa que os alunos que apresentam nível de educação elevado tendem a adquirir a língua alvo com mais rapidez e sucesso que outros com nível mais baixo. Conclui que os primeiros são mais confiantes e, portanto, esperam ter sucesso na aprendizagem. Quando já existe uma abertura consciente no cotidiano do estudante para novas experiências sociais e se apresentam traços de alguma cultura estrangeira, a predisposição do estudante em lançar-se ao risco da aquisição de uma nova língua estrangeira já será bem mais firme. Ele terá o respaldo do conhecimento pré-adquirido que lhe dará mais segurança, mesmo que essa língua seja totalmente nova. Isso não significa que pessoas que nunca tiveram oportunidade de estudar em escolas especiais ou que não têm exemplos intelectuais em família não terão as mesmas chances de aprendizado. Uma vez que se identifica a necessidade ou o gosto pelo aprendizado é papel do estudante procurar ao seu redor fontes que o auxiliem a chegar ao ponto de conhecimento que lhe interessa. O estudante pode passar a observar com mais atenção o que há disponível ao seu redor que possa ajudá-lo em seu estudo. Músicas, embalagens, manuais, tudo tem o mesmo valor, pode-se encontrar textos em vários idiomas em muitos produtos que usamos diariamente, tanto uma audição de rádio quanto uma visita ao supermercado podem se tornar aulas de idiomas. A organização no estudo também é fundamental. É necessário conseguir organizar as informações de forma prática e marcante para que a memorização seja rápida.

O ambiente interior
O que o estudante trás consigo modifica sua forma de recepção. Os estudantes que fixam sua aprendizagem na memorização, ao invés de desenvolver um trabalho abrangente extra-classe, descontextualizam a língua através de sua prática e passam a rotular seu estudo como tedioso. É uma atitude comum ver o estudo como algo externo, pertencendo a um mundo irreal, transformando-o em algo ilógico e, assim, tornando-o pesado e desagradável. Desta maneira, o próprio estudante direciona sua prática em sala de aula atrasando seu desenvolvimento e encontrando cada vez mais dificuldades em assimilar novos conteúdos, pois em seu método cada assunto passa a ser completamente novo e o que foi estudado anteriormente é deixado para trás. Neste caso o estudante precisa ser orientado a redirecionar seus propósitos a fim de tirar maior proveito de seu tempo em sala de aula, afirmando-se em seu papel como aprendiz e dando valor ao esforço que precisa despender. Krashen (1987) resume com muito sucesso a posição da sala de aula na aquisição de uma língua estrangeira:
The classroom will probably never be able to completely overcome its limitations, nor does it have to. Its goal is not to substitute for the outside world, but to bring the students to the point where they can begin to use the outside world for further acquisition, to where they can begin to understand the language used on the outside. (KRASHEN, 1987, p. 59)
O trabalho em sala de aula precisa ir muito mais além dela para que a utilidade do que se é estudado seja comprovada pelo rádio, televisão, canções, jogos de computador, filmes, entre outros. Esse mundo exterior oferece muito mais campo de estudo e variações comunicativas do que uma sala de aula poderia jamais prover. Dominar estratégias de comunicação exige conhecimentos abrangentes, inclusive na comunicação não verbal, de valores culturais por vezes muito diferentes do que é usual para o estudante. Superar os problemas de comunicação nas situações mais cotidianas em uma cultura diferente pode ser um grande desafio. O trabalho em sala de aula tem que representar um ponto de partida para grandes descobertas de si mesmo, de suas capacidades individuais, ou a fonte para a organização e o aperfeiçoamento do conhecimento. A sala de aula está para superar as lacunas que o mundo exterior sempre cria com sua heterogeneidade. Assim:
A compreensão das mensagens transmitidas através de formas lingüísticas novas, ainda não adquiridas, é que permite o crescimento lingüístico. Essa compreensão é conseguida graças ao contexto de situação em que a comunicação está inserida. O processamento da língua não ocorre isoladamente, mas em conjunção com uma séria de outros fatores de ordem emocional, cultural, social que contribuem para a caracterização da língua como instrumento de expressão individual e grupal, facilitando ou inibindo a aquisição. (BOHN, 1988, p. 54)
O envolvimento diário com a língua alvo em situações emocionalmente significativas traz uma ajuda considerável à aquisição. A abordagem em relação à aprendizagem pode ser desenvolvida como forma de vida do estudante. A abordagem pessoal de aprendizagem pode ser conscientemente dirigida se o estudante perceber quais são as possíveis motivações emocionais que o levam a estudar a língua alvo e despender mais concentração nesse que será seu ponto forte para a aquisição dela.
Uma auto-análise.
O verdadeiro aprendizado de uma língua envolve competências variadas. O estudante capaz de desenvolver seu próprio processo de aprendizado desfrutará de seus próprios desafios e conquistas, conhecendo seus limites e reconhecendo suas falhas. Ele precisa ser capaz de escolher e arquivar o que é realmente significativo para ele, assim poderá procurar através do professor o que é mais útil para seu mundo, escolhendo dar mais atenção à língua em sua forma e história ou ao seu uso. Dessa maneira o estudante verá o conhecimento como parte de si e não apenas como uma seqüência de tópicos a serem decorados.
Quem deseja aprender precisa procurar o professor com quem se identifica, o método e estratégias mais eficientes para ele e ser sincero consigo sobre o que espera de seu aprendizado e onde vai chegar com sua própria dedicação. É necessário ter claro em mente que o estudante é o principal responsável em comandar seu progresso e qual será sua velocidade. Ninguém pode ter a ilusão de que um professor proporcionará todo o conhecimento que um estudante de língua estrangeira precisa ou deseja, mas que a escolha do método mais adequado às suas necessidades é de importância fundamental. Vários métodos de ensino valorizam o papel do aluno na aprendizagem, ou a necessidade de contato máximo com a língua alvo, diferenciando-se na maneira como trabalham esses pontos. É preciso reconhecer até onde o método escolhido consegue suprir suas necessidades, onde estão as lacunas e procurar meios para eliminá-las. Isso exige grande conhecimento de si, da maneira como se aprende e o que funciona melhor em cada caso.
Não é possível que se adquira uma língua estrangeira mantendo certa distância dela. Krashen (RICHARDS, 1994, p. 72) explica que aprendizado é diferente de aquisição de competência. Para adquirir competência em língua estrangeira o estudante precisa identificar-se com ela ou correrá o risco de aprender uma linguagem descontextualizada. Pode vir a ser uma linguagem gramaticalmente correta, mas corre o risco de ser limitada. Conforme a visão do Método Natural de aprendizagem, o processo de aquisição é inconsciente e natural, prioriza a compreensão da língua e o seu uso em situações significativas (RICHARDS, 1994, p. 131). Quando a língua estudada não faz parte da vida do estudante, ela parecerá inútil e sem sentido. “Uma abordagem contemporânea de ensinar línguas toma entre outras coisas o sentido ou o significado como requisito central e os compreende como função de uma relação. Algo terá sentido se for tomado em conjunto e em relação a alguma outra coisa.”(ALMEIDA FILHO, 1993, p. 15).
O sentido é o centro de toda a aquisição, portanto, o que é significativo é mais facilmente adquirido e dificilmente esquecido. A língua é sempre recriada e inovada pelo falante. A sua criatividade reflete seu contado com a língua estudada, seu grau de capacidade de identificá-la e interpretá-la em diferentes maneiras (RICHARDS, 1994, p. 68). Um idioma estudado em função da realidade, sendo utilizado imediatamente pelo estudante em situações que realmente façam sentido para ele, e estudada de forma responsável em que o estudante esteja disposto a adquiri-la e não seja um expectador em classe proporciona a chegada a um ponto em que o estudante compreende essa língua praticamente como se fosse a sua.
Vivian Magalhães afirma, no livro Cem aulas sem tédio, que “a motivação para aprender uma língua estrangeira (...) tem de partir da própria pessoa, que é em ultima análise quem vai investir grande dose de esforço pessoal no alcance desse objetivo.” Quem se propõe a iniciar essa jornada não pode se esquivar dessa verdade, indiferente de seus objetivos pessoais. Vários autores apontam que bons aprendizes carregam certas características marcantes como autoconhecimento, criatividade em suas abordagens, abertura cultural, auto-estima elevada, afeto pela humanidade, gosto pela experiência. São reconhecidos pelo grau de risco que estão dispostos a tomar sobre si e pelo número de oportunidades que são capazes de criar. Seu grau de envolvimento com a língua, em seu dia a dia, se refletirá diretamente em classe através de sua autoconfiança. O estudante pode procurar um método em que ele seja guiado progressivamente nesse sentido, fazendo com que ele esteja consciente de seu aprendizado e da maneira como adquiriu cada passo de seu conhecimento. Esse grau de motivação é possível quando o estudante tem consciência da importância da língua alvo para ele e do grau de afetividade que envolve seu contato com a língua ou com seus falantes.
A disciplina de cada estudante é definida pela sua capacidade de reconhecer necessidades íntimas que impelem ao estudo, e pelo emprego de toda força de vontade necessária para atingir um fim determinado.
Aprender uma LE, (...), abrange igualmente configurações específicas de afetividade (motivações, capacidade de risco, grau de ansiedade, pressão do grupo) com relação a essa língua alvo que se deseja e/ou necessita aprender. Os interesses, e até mesmo ocasionais fantasias pessoais, vão ser atendidos ou frustrados ao longo do processo de ensino-aprendizagem. Dessas configurações de afetividades podem surgir motivações ou resistência em variados matizes. (ALMEIDA FILHO, 1993, p. 15)
Estar preparado para frustrações e disposto a vencer todas as barreiras já é um grande passo para a aquisição. É necessário dedicar-se ao estudo da língua estrangeira com o coração em primeiro lugar, para não impor a si próprio tarefas excessivamente árduas e ser capaz de absorver o idioma como parte de si.
As mudanças interiores.
Não é incomum que a partir da aquisição de uma nova língua, juntamente com uma visão cultural aberta, o estudante adquira uma nova visão de seu mundo. Uma comparação desprovida de preconceito abrirá horizontes tanto na cultura da língua estrangeira, quanto na da língua materna, tornando a compreensão das sociedades mais abrangente e aprimorando ainda mais a compreensão do próprio indivíduo como ser social. “Isso implica entrar em relação com outros numa busca de experiências profundas, válidas, pessoalmente relevantes, capacitadoras de novas compreensões e mobilizadora para ações subseqüentes”.(ALMEIDA FILHO, 1993, p. 15) Adquirir uma língua estrangeira dessa maneira é abrir-se para novas perspectivas, aumentar a tolerância individual ao novo e preparar-se para riscos e projetos mais audaciosos. O estudante baseia-se em si e em seu mundo para trabalhar em uma abordagem sempre mais realista de suas fronteiras. Com essa visão o estudante deixa de aprender um idioma apenas para comunicar-se, ele estuda para enriquecer-se, o idioma passa a ser uma ferramenta para adquirir uma cultura nova.
A aquisição depende de algum grau de aculturação na medida em que o estudante depende da língua estudada. Ou seja, o estudante não pode agarrar-se à sua língua materna como se fosse um náufrago. O idioma estrangeiro é uma oportunidade nova, um desafio com a única função de ser vencido. O idioma alvo é um trampolim para novos conhecimentos, não se estuda para saber a língua, mas para usá-la para chegar a outros lugares. O mundo exterior tem que ser uma fonte de conhecimento que desafia sua compreensão. O grau de importância que esse mundo tem para o estudante influenciará em seu interesse e necessidade de explorá-lo.

O mundo exterior.
Expressar-se adequadamente e comunicar-se nem sempre é uma tarefa simples mesmo na língua materna, logo, as dificuldades em uma língua estrangeira serão muito maiores e por vezes parecerão intransponíveis.
O mundo da língua alvo pode ser algo totalmente estranho e ilógico aos olhos de um estrangeiro. Infiltrar-se nesse mundo exige boa parcela de coragem e auto-estima para não ser amedrontado pelos vários equívocos inevitáveis para um aprendiz. Desenvolver-se dentro do mundo estranho de uma língua estrangeira é um trabalho muito sério, e pode sempre ficar mais complicado dependendo da disponibilidade de tempo, dedicação e envolvimento do estudante. Não se constrói verdadeiro conhecimento em poucas horas. Ninguém se torna um falante competente com um vocabulário mínimo decorado às pressas. Quem se dispõe a estudar uma língua estrangeira, e realmente deseja adquiri-la de maneira que ela lhe seja útil em qualquer situação e não apenas em rápidos passeios turísticos, tem que se preparar para vários anos de estudos didaticamente dirigidos. O estudante de língua estrangeira precisa estar consciente de que estará buscando adquirir um bem cultural de outro povo, um bem com o qual se constrói a identidade desse povo e, portanto, exige respeito. Por trás dela existe toda uma história que a carrega de significados muito concretos e de valores altamente sentimentais para seus falantes nativos. O estudante deve saber que a língua que ele está aprendendo “(...) em algum momento futuro vai não só ser falada com propósitos autênticos pelo aprendiz mas também ‘falar esse mesmo aprendiz’, revelando índices de sua identidade e das significações próprias do sistema dessa língua-alvo.” (ALMEIDA FILHO, 1993, p. 12)
O verdadeiro conhecimento é reconhecido pelas mudanças que produz em quem o adquire. Se um estudante não é modificado de alguma maneira em sua forma de agir ou pensar através do que aprende, esse aprendizado não foi considerável. É preciso colocar-se como a criança que adquire a linguagem através de seu mundo e interage dentro dele, modificando-o também pela linguagem. Vygotsky observou profundamente esse processo de modificação entre o homem e o meio. Tal processo é bastante emocional e a linguagem é extremamente móvel, heterogênea em seu uso. Cada meio exige todo um esquema de atitudes verbais e não verbais específicas que definem o próprio indivíduo. Segundo pesquisas, é sabido que quanto mais forte é a identificação do estudante com os membros falantes da língua alvo, mais próxima será sua maneira de falar daquela do grupo em questão. No entanto, quando se apresenta algum tipo de preconceito contra os falantes nativos da língua alvo, mais difícil será sua aquisição. Pode ainda ocorrer que a língua nativa do estudante influencie sempre no uso da língua estrangeira, como uma forma de manter seus vínculos com seu próprio grupo cultural, mesmo inconscientemente.
[Uma língua estrangeira] pode significar língua dos outros ou de outros, ou língua de antepassados, de estranhos, de bárbaros, de dominadores, ou língua exótica (...) só a princípio é de fato estrangeira mas que se desetrangeiriza ao longo do tempo de que se dispõe para aprendê-la. (...) Essa nova língua pode ser tida em melhor perspectiva como uma língua que também constrói o seu aprendiz. (ALMEIDA FILHO, 1993, p. 11-12)
Cada palavra carrega consigo uma variação significativa que só consegue alcançar quem tem envolvimento altamente afetivo com essa língua estrangeira. Chegar a reconhecer os significados dos símbolos da língua alvo e usá-los com a real conotação que eles possuem para o falante nativo é uma meta que merece respeito para quem a conquista.
Buscar a realidade também é uma forma de tentar superar as barreiras sócio-culturais para conseguir comunicar-se, sem frustrar-se com possíveis fracassos, que podem ser resultado da preocupação exclusiva com notas no currículo.

Na prática.
Estudantes de níveis intermediários precisam exercitar mais a fluência e o vocabulário, comparar estruturas e experimentar expressões, pois já adquiriram o básico da gramática que lhes permite certa mobilidade na língua alvo. É recomendável que esses estudantes façam grande volume de trabalhos externos também sozinhos, seguindo o desenvolvimento de seus interesses particulares, aproveitando a Internet e leituras amplas, já que o aumento de suas habilidades lingüísticas dispensa gradativamente o esforço despendido na memorização. A prática em contextos diferentes faz com que se automatize a língua alvo tornando-o fluente. Mas essa prática vai depender muito do estudante.
A abordagem de vocabulário e estruturas é valorizada pelo uso de canções, filmes, textos populares. Assim situações práticas podem ser observadas primeiro e depois copiadas e absorvidas como comportamento verdadeiro. Assistir freqüentemente a filmes em inglês propicia o contato com situações de expressão emocional de grande importância para o aprendiz. Através de filmes o estudante estará não apenas em contato com a linguagem usada em várias situações diferentes, mas também pode fixar-se em sua entonação, ritmo, expressão corporal, assim como nos vários sotaques regionais dos nativos e todos os seus costumes. Certos comportamentos comuns a nativos de diferentes países falantes de língua inglesa podem ser observados e costumes referentes a situações sociais podem ser adquiridos. Assistindo a filmes com atores de sotaques diferentes o estudante pode escolher o falar que mais lhe agrada e usar esse modelo em sua forma de falar.
Pronunciar corretamente todos os sons da nova língua pode ser muito complicado, tanto mais quando não se está com os ouvidos preparados e se identifica com falhas tais sons. Certos detalhes de pronúncia e diferenciação de palavras podem ser estudados e memorizados com bastante sucesso através de canções. As rimas ajudam tanto na memorização quanto na pronúncia e o canto exercita a fluência e a imposição de ritmos diferentes do usado na língua nativa do estudante. A tradução de músicas, apesar de ser um pouco difícil ajuda a abstrair conceitos de difícil tradução auxiliada pelo apelo emocional inevitável das canções. Também treina o estudante a inferir mensagens, prática muito útil quando se está em meio a um diálogo, ou se ouve um discurso e o tempo de que se dispõe para processar as idéias é muito curto.
A leitura em língua estrangeira apresenta outras dificuldades que somente são superadas com a prática. Leitores mal treinados têm dificuldade em se fixarem na mensagem principal, confundem as informações e perdem tempo analisando palavras desconhecidas já numa primeira leitura. É uma prática freqüente dos leitores não fluentes quase sempre ignorar as palavras conhecidas e por conta disso, muitas vezes não compreendem o texto. A leitura freqüente de vários tipos de texto, relendo várias vezes os textos mais complicados, habilita o estudante na compreensão de expressões novas, exercita a memorização e o familiariza com diferentes estilos de escrita. Ao ler um texto, um leitor fluente vai buscar compreender as linhas gerais da mensagem para, em uma segunda leitura, se aprofundar no tema e assimilar novas palavras que possam ser usadas em outros contextos. Treinando a leitura em assuntos diferentes o estudante não estará apenas aumentando sua competência em língua inglesa, mas também se desenvolvendo em cultura geral, tornado-se apto para discutir com segurança em ambas as línguas. Buscar leituras de interesse pessoal torna esse exercício muito mais eficaz, mas como em uma sala de aula existem vários interesses pessoais diferentes, o estudante terá que pesquisar por sua própria conta e certamente encontrará informações de grande utilidade para se antecipar ao estudo em classe.
O trabalho com a escrita, mesmo com textos bastante simples como bilhetes ou pequenas anotações em agendas, estimula a compreensão imediata da língua estrangeira e a troca rápida de um idioma para outro. O estudante pode exercitar-se com diários que de início serão apenas listas de afazeres, mas que evoluirão para textos ampliados envolvendo tópicos sobre valores emocionais e culturais. Com a liberdade de escrever sem a necessidade de mostrar o trabalho para um professor, o estudante poderá deixar de lado completamente a preocupação em fazê-lo gramaticalmente correto para preocupar-se exclusivamente com a mensagem. O mesmo texto pode ser reescrito quantas vezes se desejar aprimorando-o com novos termos e clareando o estilo. Pode ser usada a comparação com textos parecidos, de outros autores, para isso. Também se pode fazer resumos de outras matérias escolares ou reescrever tópicos já estudados para procurar e fixar vocabulário em várias áreas. O estudante ainda pode tentar escrever reportagens sobre assuntos de interesse pessoal, cartas para estrangeiros ou mesmo para colegas, traduções na língua materna ou estrangeira, escrever poesias, descrever ambientes ou personagens, fazer histórias em quadrinhos, entre outras atividades. As possibilidades de treinamento de escrita são inúmeras e todas elas prometem ótimo reforço no treinamento de vocabulário, gramática e organização de idéias na língua estrangeira, aprimoram a fluência também na leitura e diminuem os problemas de ortografia. Inevitavelmente a responsabilidade do estudante em comandar seu desenvolvimento aumenta na mesma proporção em que sua dependência do professor diminui. Se o estudante insiste em manter essa dependência, jogando toda a responsabilidade de seu próprio aprendizado na sala de aula, não evoluirá como espera. Os estudantes podem fixar-se excessivamente na aquisição de tópicos gramaticais e vocabulários e esquecer que o principal motivo para adquirir uma língua estrangeira é a comunicação. O estudante precisa reconhecer a diferença entre falar e comunicar e decidir qual é seu interesse. Quanto mais cedo ele investir em seu desenvolvimento extra-classe mais rápida e agradável será sua aquisição.

Um estudo de caso.
Observando-se a performance de trinta alunos entre oito e trinta e dois anos de idade, de um instituto de ensino de idiomas em Guarapuava, Paraná, juntamente com a análise de suas notas entre junho e novembro de 2000 em conjunto com questionários, obtivemos um perfil dos estudantes de inglês como língua estrangeira.
A maioria dos alunos pesquisados afirmaram que procuraram um instituto de línguas, para estudar inglês, para aprender mais do que na escola. De mesma forma a língua inglesa se mostra importante para o mercado de trabalho, apesar de que a maioria desses estudantes não trabalhava ainda. As respostas mais freqüentes que se seguiram foram a possibilidade de um dia precisar da língua inglesa e pelo simples conhecimento, ou em função da tecnologia.
O fato de procurarem um instituto de línguas para aprender um idioma melhor do que na escola normal, demonstra um grande descrédito no ensino de idiomas nessas escolas. É de opinião geral que seu aproveitamento em língua inglesa no ensino público é muito baixo, uma vez que, aqueles estudantes que não mencionaram seu aprendizado como precário, apontaram a necessidade de um curso particular como um reforço para a aprendizagem na escola ou para o vestibular. O principal objetivo apontado pelo grupo para o estudo da língua inglesa é capacitar-se para manter uma conversa com um nativo expressando-se com confiança. Porém metade dos alunos que responderam um segundo questionário classificaram como de pouco interesse conhecer falantes nativos de língua inglesa. De fato, a maioria dos alunos demonstra grande desinteresse em falar em inglês durante as aulas, tanto na prática de temas novos, quanto no uso de vocabulário e estruturas já bem conhecidas. Há resistência na correção de vícios estruturais e de pronúncia.
Em uma visão geral a maioria dos alunos considera ter pouca dificuldade em todas as competências propostas: compreender a língua inglesa falada e escrita, falar, escrever, traduzir e transcrever. Nenhum aluno acrescentou outra dificuldade ou facilidade. Foram acrescentadas, como práticas freqüentes, por um aluno, ouvir música e por outro escrever poemas.
A atividade preferida apontada pelos alunos pesquisados é ler em inglês, seguida por cantar e falar nessa língua. A maior dificuldade apontada é de compreensão da língua falada, apesar de apontada por um número pequeno de alunos. Quase o dobro desse número classifica sua dificuldade nessa área como pequena. Porém a média das notas de testes orais e de compreensão auditiva é 71, mas 46% das notas são abaixo de 70. O número de alunos que pratica com freqüência atividades que envolvem audição em primeiro plano é superado pelo número dos que as praticam poucas vezes ou nunca.
A atividade menos freqüente é escrever diários ou cartas, menos da metade dos alunos pratica a cópia textos. Observando as notas de provas escritas de todos os alunos cursando língua inglesa nota-se que seu desempenho nessa área fica entre mediano e baixo, apresentando uma média de 65 pontos. Das avaliações feitas até 30 de novembro de 2000, 44.6% dos alunos obteve notas até 69, 23.4% obteve notas entre 69 e 79 e 31.9% alcançou notas acima de 80. Os erros mais freqüentes são em ortografia e compreensão de textos. No entanto os alunos consideram que sua menor dificuldade está na compreensão da língua inglesa escrita, seguida por escrever nessa língua.
Nota-se que os estudantes com dificuldades muito grandes em tradução e compreensão apresentam dificuldades parecidas em sua língua materna. Várias dificuldades na pronúncia parecem ter sido fossilizadas em alguns casos, também aparecem dificuldades na expressão de idéias e formulação de problemas. Portanto, ao entrarem no período de “interlíngua” transferem todas essas dificuldades para a língua estrangeira. Quando não conseguem transpor suas dificuldades na língua materna também não conseguirão evoluir na língua estrangeira, permanecendo na “interlíngua” por um período bastante superior ao esperado. Apresentam grande dificuldade em organizar seu material de estudo, não desenvolvem espontaneamente relações entre os tópicos e têm deficiências em reconhecer pontos já estudados, quando esses são posteriormente requisitados. Estes fatos demonstram que a língua inglesa permanece sendo um fator externo e que mesmo os livros e cadernos de propriedade do estudante são tratados como objetos totalmente novos que parecem representar meras alegorias próprias do ambiente escolar e de uso restrito a esse ambiente. Esse descarte do material didático como ferramentas na aquisição emperra o desenvolvimento desses alunos já de início. Aqueles que não conseguem, de alguma maneira, superar esse obstáculo acabam por desistir do curso nos primeiros meses.
Apenas as respostas quanto à prática de leitura e o grau de dificuldade apontado mostram alguma concordância. Segundo os comentários dos estudantes, escrever textos se confirma como a atividade mais difícil e há um certo consenso em preferir ouvir os colegas, ou explicações, a falar. Isso demonstra um pouco de passividade por parte dos estudantes, que esperam que não lhes seja exigido muito da concentração para o raciocínio rápido dos diálogos e filmes, assim como na expressão de suas próprias idéias e opiniões em língua inglesa. Percebe-se a resistência à língua que estão aprendendo, bem como, pouco exercício da competência sociolingüística. Além disso, pode-se afirmar também um baixo compromisso com a própria aprendizagem, inibição e medo de errar.
Comparando as respostas sobre freqüências de atividades e dificuldades apresentadas pelos alunos observa-se que a atividade em que eles menos se exercitam por conta própria, ou seja escrever, é a segunda atividade em que se consideram com menos dificuldades. Tomando em conta os resultados dos testes escritos, orais e de compreensão auditiva, observa-se que os estudantes não parecem considerar seu estágio de aquisição baixo, ou suas dificuldades como reais.
Tais resultados demonstram um desconhecimento por parte dos estudantes em relação ao seu grau de competência. Apresentam um único conceito de comunicação onde o mais importante é comunicar-se da maneira mais simples possível mesmo que seus meios sejam pobres. Como média de aproveitamento do grupo estudado tem sido pouco variável para cima, conclui-se que seu interesse em mudar esse sistema de aquisição é pequeno. Em alguns casos é difícil detectar, tanto para o professor quanto para o aluno, quais são os pontos fracos e quais são as habilidades pessoais que podem ser usadas em favor da aquisição da língua inglesa. Sendo assim o esforço exigido passa a ser dobrado, tanto dentro quanto fora de classe, e o tempo gasto para isso será muito grande. Tais casos necessitam de atenção especial, uma vez que não se identifica nenhum traço de automotivação, compreendemos que o estudante não se volta espontaneamente para nenhum recurso externo.
Percebendo que a maioria dos estudantes não está utilizando as suas capacidades e as facilidades a sua disposição ao máximo. Os hábitos extra-classe trazidos pela maioria dos alunos sugerem que o desinteresse pela expansão de conhecimentos na língua inglesa pode ser um reflexo de seu comportamento em relação à língua materna. Possivelmente contentam-se com o mínimo de aquisição que conseguirem naquela, da mesma maneira como agem em relação à aquisição de conhecimento geral em sua língua materna.
Uma possível solução seria envolver os alunos em atividades constantes de pesquisa em língua inglesa, dentro dos assuntos de interesse de cada turma, aproveitando temas em estudo na escola normal. A apresentação dos resultados para toda a escola em posters, teatros, participações em outras turmas, pode fazer com que os estudantes valorizem mais a qualidade de seu trabalho. Orientar apresentações artísticas e explorar a criatividade dos alunos em trabalhos em grupos ou cooperações entre turmas pode ser bastante útil. Os temas gramaticais precisam ser totalmente vinculados com essas atividades.
Em resumo.
Concluímos este trabalho ressaltando a importância de um redirecionamento na vida particular dos estudantes, não apenas no estudo de língua inglesa como língua estrangeira, mas também se deve pensar numa nova abordagem da aquisição de conhecimento como um todo.
Uma vez que os preceitos propostos não se aplicam somente ao estudo acadêmico de línguas, mas igualmente à perseverança no aprendizado diário, se oferece uma questão decisiva para o próprio estudante. Aqui se propõe um estudo mais profundo das raízes da disposição para a aquisição de conhecimento, transmissível e cultivável como traço cultural tão forte quanto as crenças particulares. Da profundidade dessas raízes depende o sucesso ou não da tentativa de aquisição de qualquer novo conhecimento, bem como do sucesso ou não dos esforços para transmissão de conhecimento.
Acima de qualquer conceito científico, o ser humano se supera e cresce socialmente de acordo com seu amor pela matéria com que trabalha. Suas capacidades intelectuais se apóiam na sua disposição para modificar e interagir dentro de sua própria sociedade e a partir dela com outras. Para alcançar outras sociedades é preciso primeiro tomar consciência da existência delas, de sua importância e de suas diferenças. Para ter sucesso dentro delas é necessário respeitá-las e adaptar-se, sem necessariamente renegar suas próprias origens, até mesmo reafirmando-as.
O verdadeiro conhecimento se adquire a partir de conhecimentos anteriores e se fortalece na medida de sua utilidade e importância particular para o crescimento consciente do estudante.

REFERÊNCIAS.
  1. ALMEIDA FILHO, José Carlos P. de. Dimensões comunicativas no ensino de línguas. Campinas: Pontes, 1993.
  2. BOHN, Ilario Inácio; VANDERSEN, Paulino (org.). Tópicos de lingüística aplicada: O ensino de língua estrangeira. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 1988.
  3. KRASHEN, Stephen D. Principles and practice in second language acquisition. Hertfordshire: Prentice Hall International UK Ltda., 1987.
  4. MAGALHÃES, Vivian & AMORIM, Vanessa. Cem aulas sem tédio. Porto Alegre: Padre Réus, 1998.
  5. RICHARDS, Jack C.; RODGERS, Theodore S. Approaches & methods in language teaching. Cambridge: Cambridge University press, 1994.
  6. WALTER, Tereza. The amazing English. SL: Addison-Wesley, 1996.

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